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"AS SETE LÁGRIMAS... DE PAI-PRETO"
"AS SETE LÁGRIMAS... DE PAI-PRETO"

as sete lágrimas

 

Eis o quadro: um "terreiro" simples, pobre, feito de madeira, na encosta de um morro, quase sem vizinhança. Tudo respira paz. Entremos... Alguns bancos para assistentes e uma separação resguardando a parte destinada às coisas espirituais. De frente, há uma pequena mesa coberta por alvíssima toalha. Na parede, uma estampa de Cristo. Sobre a mesa, uma tábua de 40 X 30 cm, repleta de estranhos sinais feitos a giz e ainda 3 pires para acender velas e 2 jarros com flores. No chão, ao lado da mesa, 2 banquinhos brancos. É só...

Pois era aí, que esse "preto-velho" "baixava", isto é, tinha nesta ocasião o seu "congá". Robusteçam então esse quadro-mental e sintam: - "preto-velho" está no "reino" (incorporado), calmo, pitando, e Cícero - o filho-de-fé, a quem passou a chamar de "Zi-cerô", sentado de frente, consultando... e vejam! deu-se uma curiosa metamorfose: "preto-velho" não é mais o mesmo! "Botou de lado" aquele linguajar de guerra, de uso vulgar nos terreiros. Ele agora está falando claro, positivo. Sua palavra é uma partículo do Verbo. Tem sabedoria. Tem compreensão. Tem tolerância. Todavia, ele faz uso, vez Dor outra, de certos termos da "gíria de terreiro", para melhor entendimento. "Preto-Velho" está dizendo "coisas" a "Zi-cerô", pois ele pergunta muito...

 

Vamos, prezados irmãos, ler e sentir o que "Pai G... diz, nessas "Lições de Umbanda na palavra de um preto-velho"... pois elas também servirão para os estudiosos entenderem ou alcançarem melhor os ensinamentos contidos nas duas obras anteriores citadas.

 

Nestas páginas, estão gravadas as impressões vividas e sentidas por mim, diretamente, de um humilde e leal amigo do astral - o Pai-G..., a quem rendo minha eterna gratidão, como seu veículo mediúnico desde a infância...

 

Desse "preto-velho", colhi esse lamento e essa lição, sobre a natureza das humanas criaturas que "giram" nos terreiros ou Tendas de Umbanda.

 

Isto foi há muitos anos... quando a experiência ainda não tinha encanecido minha alma nesse mister...

 

Naturalmente, ele, ao proporcionar-me esse "passeio-astral" e ao falar assim numa demonstração direta, quis que eu visse a coisa como ela era e é... pois eu tinha ilusões e bastante ingenuidade ainda...

 

Assim, quero dedicar essas suas sete lágrimas, a meus irmãos de Umbanda, aparelhos, sinceros, para que, meditando nelas e vibrando na doce paz desses "pretos-velhos", possam haurir forças e compreensão e sobretudo a indispensável experiência, para que sejam, realmente, baluartes das verdades que eles tanto ensinam... quando têm oportunidade...

 

"AS SETE LÁGRIMAS... DE PAI-PRETO"
(COMPLETA)



Foi uma noite estranha aquela noite queda; estranhas vibrações afins penetravam meu Ser Mental e o faziam ansiado por algo, que pouco a pouco se fazia definir...

 

Era um quê desconhecido, mas sentia-o, como se estivesse em comunhão com minha alma e externava a sensação de um silencioso pranto...

 

Quem do mundo Astral emocionava assim um pobre "eu"? não o soube, até adormecer... e "sonhar"...

 

Vi meu "duplo" transportar-se, atraído por cânticos que falavam de Aruanda, Estrela Guia e Zambi; eram as vozes da SENHORA DA LUZ-VELADA, dessa UMBANDA DE TODOS NÓS que chamavam seus filhos de fé...

 

E fui visitando Cabanas e Tendas, onde multidões desfilavam... Mas, surpreso ficava, com aquela "visão" que em cada uma eu "via", invariavelmente, num canto, pitando, um triste Pai-preto, chorava.

 

De seus "olhos" molhados, esquisitas lágrimas desciam-lhe pelas faces e não sei por que, contei-as... foram sete. Na incontida vontade de saber, aproximei-me e interroguei-o: fala Pai-preto, diz a teu filho, por que externas assim uma tão visível dor?

 

E Ele, suave, respondeu: estás vendo essa multidão que entra e sai? As lágrimas contadas, distribuídas estão dentro dela...

 

A primeira eu a dei a esses indiferentes que aqui vêm em busca de distração, na curiosidade de ver, bisbilhotar, para saírem ironizando daquilo que suas mentes ofuscadas não podem conceber.

 

Outra, a esses eternos duvidosos que acreditam, desacreditando, na expectativa de um "milagre" que os façam "alcançar" aquilo que seus próprios merecimentos negam.

 

E mais outra foi para esses que creem, porém, numa crença cega, escrava de seus interesses estreitos. São os que vivem eternamente tratando de "casos" nascentes uns após outro...

 

E outras mais que distribui aos maus, aqueles que somente procuram a Umbanda em busca de vingança, desejam sempre prejudicar a um seu semelhante - eles pensam que nós, os Guias, somos veículos de suas mazelas, paixões, e temos obrigação de fazer o que pedem... pobres almas, que das brumas ainda não saíram.

 

Assim, vai lembrando bem, a quinta lágrima foi diretamente aos frios e calculistas - não creem, nem descreem; sabem que existe uma força e procuram se beneficiar dela de qualquer forma. Cuida-se deles, não conhecem a palavra gratidão, negarão amanhã até que conheceram uma casa da Umbanda...

 

Chegam suaves, têm o riso e o elogio à flor dos lábios, são fáceis, muito fáceis; mas se olhares bem seus semblantes, verás escrito em letras claras: creio na tua Umbanda, nos teus Caboclos e no teu Zambi, mas somente se vencerem o "meu caso", ou me curarem "disso ou daquilo"...

 

A sexta lágrima eu a dei aos fúteis que andam de Tenda em Tenda, não acreditam em nada, buscam apenas aconchegos e conchavos; seus olhos revelam um interesse diferente, sei bem o que eles buscam.

 

E a sétima, filho, notaste como foi grande e como deslizou pesada? Foi a ÚLTIMA LÁGRIMA, aquela que "vive" nos "olhos" de todos os orixás; fiz doação dessa, aos vaidosos, cheios de empáfia, para que lavem suas máscaras e todos possam vê-los como realmente são...

 

"Cegos, guias de cegos", andam se exibindo com a Banda, tal e qual mariposas em torno da luz; essa mesma LUZ que eles não conseguem VER, porque só visam a exteriorização de seus próprios "egos"...

 

"Olhai-os" bem, vede como suas fisionomias são turvas e desconfiadas; observai-os quando falam "doutrinando"; suas vozes são ocas, dizem tudo de "cor e salteado", numa linguagem sem calor, cantando loas aos nossos Guias e Protetores, em conselhos e conceitos de caridade, essa mesma caridade que não fazem, aferrados ao conforto da matéria e à gula do vil metal. Eles não têm convicção.

Assim, filho meu, foi para esses todos que viste cair, uma a uma, AS SETE LÁGRIMAS DE PAI-PRETO! Então, com minha alma em pranto, tornei a perguntar: não tens mais nada a dizer, Pai-Preto? E, daquela "forma velha", VI um véu caindo e num clarão intenso que ofuscava tanto, ouvi mais uma vez...

 

"Mando a luz da minha transfiguração para aqueles que esquecidos pensam que estão... ELES FORMAM A MAIOR DESSAS MULTIDÕES"...

 

São os humildes, os simples; estão na Umbanda pela Umbanda, na confiança pela razão... SÃO OS SEUS FILHOS DE FÉ.

 

São também os "aparelhos", trabalhadores, silenciosos, cujas ferramentas se chamam DOM e FÉ, e cujos "salários" de cada noite... são pagos quase sempre com uma só moeda, que traduz o seu valor numa única palavra - a INGRATIDÃO...

 

W. W. da Matta e Silva